Recentemente conversei com uma pessoa da religião sobre a importância do estudo das nossas raízes para a compreensão do que é fundamento e tradição versus invencionice aguda de cabeças criativas.
O que mais me espantou nessa conversa foi o medo genuíno da pessoa de absorver tanto conteúdo e, no final do dia, estar mais perdida do que quando começou.
E eu vejo 2 pontos principais nesse medo:
- De fato, hoje temos muita informação. E o problema principal é atestar a sua veracidade.
Temos acesso a mais informação do que em qualquer outro momento da história. E isso é maravilhoso. Mas aí vem o outro lado da moeda: informação e conhecimento não são a mesma coisa.Hoje qualquer pessoa consegue produzir e compartilhar conteúdo, mas o papel, os posts do instagram aceitam qualquer coisa, né? Tenham sempre isso em mente!
Se antes já era necessário verificar a origem, a consistência da informação e a honestidade intelectual de quem a produz, hoje essa necessidade cresce exponencialmente.
E aqui ainda existe um agravante: grande parte da nossa história foi escrita por quem venceu. Pelo colonizador. Por pessoas que, muitas vezes, olhavam para as nossas tradições com preconceito, interesse de controle e pouca ou nenhuma vontade de compreendê-las.
Isso não significa que devemos abandonar a história. Significa que precisamos aprender a lê-la criticamente, comparar fontes e buscar quem se esforça para trabalhar com honestidade intelectual. - Quanto mais sabemos sobre um assunto, mais percebemos o quanto não sabemos de nada. É clichê, mas é a pura verdade.
E aqui vale uma diferença importante: perceber o quanto você ainda não sabe não significa que tudo o que aprendeu perdeu o valor.
Numa tradição oral como a nossa, é natural que cada casa, cada nação, cada terreiro tenha nuances sobre um mesmo fundamento. Isso não é necessariamente bagunça. É parte da forma como esses conhecimentos foram transmitidos: pela oralidade, pela prática e de geração em geração.
A insegurança do “cada um fala uma coisa” começa a diminuir quando você entende que muitos cultos possuem lastros familiares próprios. Nem toda diferença é contradição. Muitas vezes, ela é apenas o reflexo da trajetória daquela tradição. Isso não significa, porém, que toda diferença seja fundamento. A trajetória explica a nuance, não substitui o critério.
Quando você abre a porta do conhecimento, não é mais possível fechá-la! E isso é mágico. E assustador.
Essa sensação de estar mais perdida é, na real, sinal de que você parou de aceitar respostas fáceis. Quem nunca duvida de nada normalmente é porque nunca foi fundo o suficiente para encontrar a complexidade.
A caminhada do conhecimento não é fácil. Quando você começa a se aprofundar, encontra muito conteúdo. Principalmente quando falamos sobre religiões afro-indígenas.
Tem preconceito. Tem romantização. Tem estereótipos mágicos mirabolantes. Tem gente querendo ganhar dinheiro em cima da fé e da vulnerabilidade das pessoas.
Mas até o contato com uma informação ruim pode contribuir para a construção do seu senso crítico, desde que você tenha ferramentas para questionar, comparar e perceber o que não se sustenta. Então busque quem se esforça para ser rigoroso, não qualquer voz.
Pense simples, mas profundo. Pare de procurar a resposta pronta de alguém. Comece a construir a sua própria compreensão, com calma.
Se permita experimentar, se permita ouvir e se desconstruir. Mesmo que você comece por um caminho e, mais à frente, perceba que ele não foi o melhor, se permita dar um passo atrás e começar novamente.
Eu fiz isso algumas vezes. Me perdi em alguns momentos e fui me reencontrando ao longo.
E isso também não significa abandonar a espiritualidade. Confie nos seus mortos. Peça ajuda para que você consiga encontrar o seu caminho. Perdi as contas das vezes que chorei ao pé das minhas firmezas, pedindo sabedoria para compreender a minha caminhada.
Algo que eu sempre trago nos meus textos: você é responsável pela sua caminhada.
A exploração do mundo, as nossas tentativas, os erros, os acertos e as experimentações são o que nos traz a tão falada “evolução”.
Evolução como ser humano, como espírito e como consciência.
O excesso de informação não pode ser um argumento contra o estudo.
É justamente o motivo pelo qual estudar se tornou ainda mais importante.
Axé!
N’gunzo!
Salve Família Treme-Terra!




