Falar sobre Preto Velho é falar sobre uma das figuras espirituais mais profundas das religiões afro-brasileiras. No entanto, para compreender de fato quem são os Pretos Velhos, é preciso sair da imagem romantizada do velhinho bondoso, sempre sentado no banquinho, fumando cachimbo e dando conselhos mansos. Essa imagem existe e tem força religiosa e afetiva, mas ela não explica tudo.
Preto Velho é mais do que uma entidade de consolo. Trata-se de uma categoria espiritual formada pela memória da escravidão, pela experiência africana no Brasil, pela resistência dos povos negros e pela reorganização das macumbas brasileiras ao longo dos séculos.
O vídeo abaixo, do Tata Mukua, é o ponto de partida desta reflexão. Assista antes de continuar lendo.
Em vida, essas entidades representam homens e mulheres negros marcados pela experiência do cativeiro, da dor, da sabedoria e da sobrevivência. Ainda assim, não devemos entendê-los apenas como escravizados resignados. Essa leitura é perigosa, pois pode transformar a violência da escravidão em uma espécie de virtude espiritual passiva. Preto Velho não é símbolo de submissão. É símbolo de permanência.
A figura do Preto Velho nasce de uma pergunta que considero central para entender toda a nossa tradição: o que acontece quando um povo escravizado, violentado e desumanizado transforma sua dor em fundamento espiritual? Para responder isso, precisamos começar no período colonial, com os Calundus.
Calundu: cura, transe e ancestralidade no Brasil colonial
Nos séculos XVII e XVIII, antes da formação da Umbanda e da Macumba Carioca, já existiam no Brasil práticas religiosas africanas conhecidas como Calundus. Eram rituais de origem principalmente centro-africana, com presença de cura, adivinhação, canto, dança, tambor, transe e incorporação espiritual.
Do ponto de vista social, os Calundus tinham uma função muito concreta. Eram procurados para curar doenças, resolver aflições, interpretar problemas espirituais, proteger pessoas e restaurar equilíbrios rompidos.
Esse ponto é essencial para pensar Preto Velho. Antes de aparecer como linha organizada dentro da Umbanda, já existia no Brasil uma tradição negra de cura espiritual e aconselhamento. O velho africano, a velha africana, o curador, a rezadeira e o conhecedor de ervas já estavam presentes nesse universo.
Certamente, não eram chamados de Pretos Velhos no sentido umbandista moderno. Mas o fundamento já estava ali: a autoridade espiritual negra, a cura pela palavra, a relação com os ancestrais e a certeza de que a dor do cativeiro também podia ser enfrentada por meios espirituais.
Assim, a raiz histórica de Preto Velho não começa com a Umbanda do século XX. Ela começa muito antes, quando africanos e afrodescendentes recriaram, em condições de extrema violência, seus modos de curar, aconselhar e manter viva a memória espiritual da comunidade.
Quem eram eles em vida: escravidão, velhice e autoridade ancestral
A memória dos que sobreviveram
Para entender Preto Velho, precisamos também perguntar quem eram esses homens e mulheres em vida. Historicamente, o Preto Velho representa a memória dos africanos e afrodescendentes submetidos à escravidão. Muitos foram trabalhadores de roça, mineradores, cozinheiras, lavadeiras, parteiras, curadores, rezadores e benzedeiras. Pessoas que viveram sob violência extrema, mas que preservaram formas de cuidado, aconselhamento e resistência.
A velhice, nesse contexto, carrega um significado profundo. Em sociedades africanas, ela está frequentemente associada à autoridade, à memória e à proximidade com os ancestrais. No Brasil escravista, além disso, envelhecer sendo negro era sobreviver a uma estrutura feita para consumir corpos. Um negro velho carregava as marcas da violência, mas carregava também memória.
A força que o sistema tentou destruir
Por isso, Preto Velho não deve ser reduzido à imagem de fragilidade. A bengala, o corpo curvado e a fala pausada não indicam apenas fraqueza. São símbolos de tempo, de experiência e de conhecimento profundo das dores humanas.
De fato, a força de Preto Velho está naquilo que a sociedade escravista tentou destruir: a humanidade negra. Ele é a presença espiritual de quem foi desumanizado em vida, mas retorna como autoridade religiosa.
Nesse sentido, a memória da escravidão não aparece apenas como sofrimento. Ela aparece como fundamento. Os terreiros recriam e ritualizam a experiência histórica do cativeiro, transformando um trauma coletivo em presença espiritual ativa. O Preto Velho não apaga a escravidão. Ele a lembra de um modo religioso, ritual e comunitário. Não aparece apenas para contar que sofreu. Aparece para orientar, curar, aconselhar e dar continuidade à vida.
Cabula: segredo, mata, ancestralidade e continuidade banto
Depois dos Calundus, outro ponto importante nessa trajetória é a Cabula. Trata-se de uma prática religiosa afro-brasileira muito associada às matrizes bantas, especialmente em regiões como Espírito Santo, Minas Gerais, Bahia e Rio de Janeiro. Aparece na documentação como culto de caráter secreto, com iniciação, hierarquias próprias e presença de elementos católicos, africanos e indígenas.
A Cabula é fundamental para pensar Preto Velho porque nela encontramos um ambiente religioso onde a ancestralidade, o segredo, a mata, a cura e a comunicação espiritual já se articulavam. Não estamos ainda diante da Umbanda organizada, mas de um campo afro-brasileiro no qual os mortos e os ancestrais já tinham lugar.
É preciso cuidado para não afirmar uma linha direta entre Calundu, Cabula e o que viria depois. Ainda assim, é possível reconhecer que a Cabula participa do ambiente histórico que ajudou a formar as macumbas brasileiras.
Desse modo, a figura do Preto Velho pode ser compreendida como herdeira de uma espiritualidade em que o velho negro, o curador e o conhecedor dos segredos da mata já possuíam autoridade. Ele não surge isolado. Surge de uma longa tradição de culto, cura, transe e ancestralidade negra.
Macumba Carioca: o Preto Velho no campo religioso urbano
No final do século XIX e início do século XX, especialmente no Rio de Janeiro, ganhou força um campo religioso urbano conhecido genericamente como macumba. A Macumba Carioca reunia elementos africanos, indígenas, católicos, populares e espíritas. Era um universo fluido, plural e perseguido.
Nesse contexto urbano, a memória da escravidão ainda era muito recente. A abolição ocorreu em 1888 e, no início do século XX, muitos africanos e descendentes diretos de escravizados ainda estavam vivos. Por isso, a cidade carregava as marcas do cativeiro, da pobreza e da marginalização negra.
É precisamente nesse ambiente que a figura espiritual do velho negro ganha força como memória viva. Preto Velho representa o passado escravista, mas também a sabedoria popular que sobreviveu à violência. Sua fala é simples, mas não é ignorante. Sua postura é humilde, mas não é submissa.
Assim, a Macumba Carioca contribuiu para a formação do Preto Velho ao oferecer o espaço ritual onde diferentes memórias espirituais puderam se encontrar: o ancestral africano, o escravizado brasileiro, o curador popular e o caboclo da terra. Essa mistura não deve ser entendida como confusão. É uma forma brasileira de reorganizar mundos espirituais distintos diante das condições sociais da cidade.
Umbanda: Preto Velho como linha de cura, caridade e memória
Com a consolidação da Umbanda no século XX, Preto Velho passou a ocupar um lugar central na religião. Ao lado dos caboclos, tornou-se uma das principais linhas de trabalho umbandista, geralmente associado à humildade, à paciência, à cura e ao aconselhamento.
Nesse processo, porém, houve uma transformação importante. A Umbanda reorganizou a memória da escravidão dentro de uma linguagem marcada pelo espiritismo kardecista e pelo cristianismo popular. Como resultado, Preto Velho passou a ser visto como espírito sofredor que superou a dor e retorna para praticar a caridade.
Essa leitura teve força religiosa e social. Ela permitiu que a memória negra entrasse no centro de uma religião urbana em processo de legitimação. No entanto, também trouxe riscos. Em alguns discursos, Preto Velho foi transformado em símbolo de resignação e de aceitação passiva do sofrimento. Essa interpretação precisa ser criticada com a mesma firmeza com que recusamos qualquer leitura que romantize a escravidão.
A escravidão foi violência. Sequestro, trabalho forçado, tortura, destruição familiar, morte. A grandeza espiritual de Preto Velho não está em ter aceitado a opressão. Está em ter sobrevivido a ela e transformado essa experiência em sabedoria ancestral.
O que Preto Velho contribuiu para a formação das macumbas
A contribuição de Preto Velho para as macumbas brasileiras é enorme. Vale destacar cinco pontos centrais.
Em primeiro lugar, ele consolidou a presença da ancestralidade negra como autoridade espiritual. Em uma sociedade que desvalorizava o negro, o velho e o ex-escravizado, o terreiro colocou essa figura no centro da consulta, da cura e da palavra sagrada.
Em segundo lugar, fortaleceu a dimensão terapêutica das macumbas. Desde os Calundus coloniais, as práticas afro-brasileiras sempre lidaram com doença, aflição e desequilíbrio. Preto Velho mantém essa tradição por meio da benzedura, do conselho, da reza e do uso das ervas.
Em terceiro lugar, ensinou uma ética da palavra. Sua fala costuma ser simples, mas carrega autoridade. Isso revela uma contribuição profunda: o saber não está apenas no livro ou na doutrina escrita. Está também na oralidade, na experiência e na memória.
Em quarto lugar, ajudou a manter viva a memória da escravidão dentro do próprio ritual. Ele lembra que as religiões afro-brasileiras nasceram da travessia atlântica, do cativeiro, dos quilombos, das cozinhas e das periferias.
Por fim, em quinto lugar, contribuiu para equilibrar firmeza e acolhimento. Cura, mas também corrige. Aconselha, mas também cobra. Acolhe, mas também aponta o erro. Sua mansidão não deve ser confundida com fraqueza.
Preto Velho dentro da Kimbanda
Por fim, é preciso falar de Preto Velho dentro da Kimbanda. Muitas vezes, por causa de leituras simplistas, a Kimbanda acaba sendo reduzida apenas a algumas de suas entidades mais conhecidas, como se não tivesse relação com outras formas de ancestralidade. Contudo, em muitas tradições, especialmente aquelas que compreendem a Kimbanda a partir de matrizes Congo-Angola e da Macumba Carioca, Preto Velho também ocupa lugar de fundamento.
Dentro da Kimbanda, Preto Velho não aparece apenas como entidade de pacificação moral. Pode ser compreendido como ancestral de fundamento, conhecedor da terra, da morte, das ervas, da defesa e da feitiçaria popular. Sua sabedoria não é apenas caridosa. É também estratégica.
O Preto Velho da Kimbanda conhece os caminhos da dor, da perseguição e da sobrevivência. Entende o sofrimento humano, mas também entende a necessidade de defesa. Sabe rezar, mas também sabe quebrar demanda. Além disso, sabe aconselhar, mas também sabe firmar e proteger.
Nesse ponto, ele se aproxima do velho curador africano e afro-brasileiro: aquele que domina ervas, palavras, rezas, mortos, chão, fumaça, silêncio e segredo. Não é apenas o vovô bonzinho construído por certa moral religiosa. É ancestral poderoso, marcado pela experiência histórica da violência e pela inteligência ritual de quem aprendeu a sobreviver.
Portanto, dentro da Kimbanda, Preto Velho pode ser compreendido como memória ancestral que não foi domesticada pela ideia de caridade abstrata. Continua ligado à cura, mas também à defesa. Continua ligado à humildade, mas também à firmeza e ao fundamento.
Essa leitura não nega o Preto Velho da Umbanda. Ao contrário, amplia sua compreensão. Mostra que é uma entidade mais antiga, mais profunda e mais complexa do que muitas representações populares sugerem.
Uma síntese da experiência afro-brasileira
Preto Velho vem dos Calundus, das curas e das rezas coloniais. Passa pela Cabula, pelo segredo e pela ancestralidade banta. Reaparece na Macumba Carioca como memória negra urbana e popular. Consolida-se na Umbanda como linha de cura, caridade e conselho. E, na Kimbanda, pode ser compreendido como ancestral de força, defesa, sabedoria e fundamento.
Em síntese, ele reúne a memória da África, a dor da escravidão, a força da ancestralidade, a cura dos Calundus, o segredo da Cabula, a pluralidade da Macumba Carioca, a caridade da Umbanda e a firmeza da Kimbanda.
Quem foram eles em vida? Africanos e afrodescendentes marcados pelo cativeiro, pelo trabalho, pela violência, pela velhice, pela fé e pela sobrevivência. Mães, pais, curadores, rezadeiras, parteiras, conhecedores de ervas e ancestrais comunitários.
O que contribuíram para as macumbas? A centralidade da ancestralidade negra, a cura espiritual, a oralidade, a ética do conselho, o uso das ervas, a memória da escravidão e a transformação da dor em fundamento religioso.
Preto Velho não é apenas uma entidade mansa. É uma entidade histórica.
Não é apenas símbolo de humildade. É símbolo de permanência.
Não é apenas lembrança da escravidão. É a prova espiritual de que a escravidão tentou destruir um povo, mas não conseguiu destruir sua memória, sua sabedoria e sua força ancestral.
Referências deste conteúdo
Uma coisa que sempre me chamou atenção no Tata Mukua é a seriedade com que ele trata o conhecimento. Ele poderia, como fazem tantos outros, falar apenas a partir da própria experiência sacerdotal, e isso já seria suficiente para muita gente. Mas não é assim que ele trabalha. Tata Mukua é pesquisador, autor de obras que eu mesmo uso como referência constante, e ainda assim nunca abre mão de consultar fontes acadêmicas sólidas para fundamentar o que ensina. Isso, para mim, é o que separa a transmissão séria de uma tradição do improviso que vemos circular por aí.
O conteúdo apresentado neste post tem como base o vídeo e os materiais de pesquisa do Tata Mukua. As fontes acadêmicas que sustentam esse argumento histórico são as seguintes:
- DAIBERT, Robert. A religião dos bantos: novas leituras sobre o calundu no Brasil colonial. Estudos Históricos, 2015.
- GOULART, Guilherme Dantas Nogueira; NOGUEIRA, Nilo Sérgio D’Ávila. A Cabula capixaba e seus vestígios em Minas. Revista Calundu, 2017.
- GRASSE, Jonathon. Calundu’s Winds of Divination: Music and Black Religiosity in Eighteenth and Nineteenth-Century Brazil. Yale Journal of Music & Religion, 2017.
- JOÃO DO RIO. As Religiões no Rio. Fundação Darcy Ribeiro, 2013 [1904].
- MACGAFFEY, Wyatt. Religion and Society in Central Africa: The BaKongo of Lower Zaire. University of Chicago Press, 1986.
- MOTT, Luiz. Acotundá: raízes setecentistas do sincretismo religioso afro-brasileiro. Revista do Museu Paulista, 1986.
- ORTIZ, Renato. A Morte Branca do Feiticeiro Negro: Umbanda e Sociedade Brasileira. Brasiliense, 1991.
- PRANDI, Reginaldo. Referências sociais das religiões afro-brasileiras: sincretismo, branqueamento, africanização. Horizontes Antropológicos, 1998.
- REZENDE, Lívia Lima. A memória da escravidão recriada na figura umbandista dos pretos-velhos. Dissertação de Mestrado, Universidade Federal de São João del-Rei.
- SOUZA, Laura de Mello e. O Diabo e a Terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade popular no Brasil colonial. Companhia das Letras, 1986.
- SWEET, James H. Recreating Africa: Culture, Kinship, and Religion in the African-Portuguese World, 1441–1770. University of North Carolina Press, 2003.
Que N’zambi nos traga bençãos!
Salve Maioral!
Salve a Família Treme Terra!




