Kimbanda, com sua matriz bantu-indígena, traz em sua essência o uso do sangue como veículo da força vital. Capaz de ativar, renovar e fortalecer vínculos espirituais.
Muito diferente dos olhares preconceituosos, o ato da imolação não é algo primitivo ou selvagem. Os povos originários e africanos conheciam profundamente as forças da natureza e sabiam como se relacionar com elas. Kimbanda, como culto ancestral aos mortos, mantém viva a tradição, resistindo aos séculos de criminalização e à moralidade cristã imposta no passado e ainda nos dias atuais.
A Constituição Federal de 1988 garante, em seu artigo 5º, inciso VI, a liberdade de consciência e de crença, assegurando o livre exercício dos cultos religiosos e a proteção aos seus locais de culto e liturgias. Em 2019, por decisão unânime, o Supremo Tribunal Federal confirmou a constitucionalidade do sacrifício ritual de animais nas religiões de matriz africana, desde que sem crueldade desnecessária e com respeito às normas sanitárias. O respeito às práticas religiosas se faz mais que necessário.
Na tradição bantu, chamamos essa força vital de ngunzo. Sua manutenção garante a circulação dessa força, o fortalecimento da ancestralidade e a conexão entre o mundo visível e o invisível. Não é um pagamento às entidades. A imolação é um ato litúrgico de fundamento, inserido em uma cosmologia onde vida, matéria, ancestralidade e força vital estão profundamente conectadas.
A relação com o animal é uma relação de profundo respeito. Existe ritualística. Existe fundamento. Existe tradição. Não é o sangue pelo sangue. É a vida sustentando a vida. Uma vida se vai para que outra continue seu caminho.
N’gunzo ê!
Salve Maioral!
Salve a Kimbanda!
Salve os Bakulos!




