Para compreender a origem da Kimbanda, é preciso romper com mitos fundamentais. Mitos que cristalizam o nascimento das religiões afro-indígenas brasileiras em datas específicas, em figuras messiânicas, em revelações divinas. A Kimbanda não nasce no vácuo. Ela é herdeira de um sistema complexo que atravessa o Atlântico desde as terras bantos da África Central até o subúrbio do Rio de Janeiro.
O vídeo que você encontra abaixo é o primeiro de uma série que o Tata Mukua dedica inteiramente a esse percurso. Assista antes de continuar lendo.
Uma palavra, um ofício
A palavra quimbanda, seja grafada com K ou com Q, vem do tronco linguístico quimbundo. Em sua origem, ela nomeava o curandeiro, o adivinho, aquele que tinha a missão de se comunicar com o mundo espiritual. Era, em suma, o sacerdote que mediava a relação entre o mundo físico e o mundo espiritual.
Não era apenas um título honorário. Era uma função.
Documentos inquisitoriais dos séculos XVII e XVIII já trazem relatos de figuras como Luzia Pinta e João Congo, que descrevem mestres utilizando tambores, ervas e danças para curar males físicos e espirituais. Ali está o embrião do que conhecemos hoje: o sacerdote que lida com as forças da ancestralidade e da terra.
No Calundu, forma ritual que antecede e alimenta as macumbas brasileiras, já encontramos sacerdotes chamados de Tata Kimbanda ou Mameto Kimbanda. Seu ofício era a cura e a comunicação com a ancestralidade, não apenas com espíritos dos antepassados, mas também com espíritos divinizados, heróis de guerra, figuras de importância histórica para aqueles povos.
A Macumba Carioca e o caldeirão banto
Com a migração de populações marginalizadas para o Rio de Janeiro, forma-se um caldeirão étnico e cultural que ficou conhecido como Macumba Carioca. Dentro da Pequena África, essa macumba não era uma prática única e homogênea. Havia sacerdotes de diversas origens: bantos, malês, iorubás. Cada um trazia seu chão, suas influências, seus fundamentos.
Na grande maioria das macumbas cariocas, porém, a influência dominante era a do povo banto e de sua “feitiçaria”. E é dessa raiz que emerge uma figura central para entender tudo o que vem depois: o Maioral.
O Maioral, dentro da Macumba Carioca de chão banto, não é uma entidade, não é um demônio, não é um anjo. O Maioral é uma energia consciente que vai alimentar toda a prática que acontece dentro da macumba carioca. Essa distinção é fundamental, e voltaremos a ela.
O olhar da elite e o surgimento da Umbanda
A Macumba Carioca nunca agiu livremente. Era marginalizada, criminalizada, perseguida. Ainda assim, a elite brasileira da época, formada por adeptos do kardecismo, por políticos, militares e pessoas de alto poder aquisitivo, olhava para a Pequena África com uma curiosidade que não era respeito. Era espanto.
Essas pessoas subiam o morro, frequentavam as macumbas, procuravam ajuda ali onde não confiavam nem na própria religiosidade. E com o tempo, algumas delas decidiram se apropriar do que viam.
Figuras como Zélio de Morais absorveram parte dos rituais da macumba, saíram de dentro da Pequena África e construíram um sistema higienizado e branqueado, voltado a um público burguês e cristão. O que ficou dessa retirada foi a Umbanda como a conhecemos hoje, sem imolação, sem o culto ao Maioral, com caboclos e pretos-velhos como protagonistas visíveis. O que ficou de fora foi exatamente o que não cabia no gosto daqueles que a criavam.
Vale notar que a própria palavra umbanda já existia dentro da Macumba Carioca. Ela vem do quimbundo e significa cura. A Umbanda era o nome de uma gira de cura, de um rito específico dentro da macumba. Quando Zélio tenta o nome alabanda, batismo que fazia referência ao chão muçulmano onde aprendeu, percebe que o nome não cola num ambiente kardecista e cristão. E adota então o nome Umbanda, esvaziando-o de seu contexto original.
O Congresso, Lourenço Braga e a invenção da Kimbanda demoníaca
Em 1941, realiza-se o Primeiro Congresso de Espiritismo de Umbanda. Figuras como Aluísio Fontinelli, Leal de Souza e Lourenço Braga buscam sistematizar a Umbanda sob moldes kardecistas e cristãos, e ao mesmo tempo criminalizar a Macumba Carioca.
É nesse contexto que Lourenço Braga publica um livro chamado Umbanda Magia Branca, Kimbanda Magia Negra. O que esse livro faz não tem fundamento na tradição. Não tem fundamento na prática. O que ele faz é olhar para a Macumba Carioca, chamar suas práticas de Kimbanda e construir sobre ela uma imagem demoníaca.
O Maioral, que dentro da macumba nunca foi visto como um demônio, passa a ser comparado a Lúcifer, a Belzebu, a Baal, a figuras da Goécia europeia que nada têm a ver com a cosmologia afro-indígena. Isso porque essas figuras do congresso estudavam teosofia e alta magia, e ao se depararem com algo que não compreendiam, simplesmente inventaram uma explicação que cabia na sua visão de mundo.
Quem não sabe inventa.
E é importante entender: dentro da cultura afro-indígena, não existe a figura do diabo. Não existe um antagonista do bem. Para a macumba carioca, para o Calundu, para a Cabula, para a Santidade, o bem e o mal não são forças externas que se combatem. A escolha de ser deus ou diabo é sua. Então toda a construção demoníaca que Lourenço Braga e outros lançam sobre o Maioral e sobre a Kimbanda é uma projeção cristã sobre uma cosmologia que nunca comportou esse dualismo.
Virar a banda
Sob perseguição social, religiosa e depois também da ditadura militar, as macumbas cariocas precisam se adaptar para sobreviver.
A estratégia foi a que ficou conhecida como virar a banda. De dia, a macumba funcionava de forma aberta, sem imolação, sem o culto ao Maioral e a Exu e Pombagira. Quando a assistência, os visitantes e os curiosos iam embora, as portas se fechavam. Somente os adeptos de confiança ficavam. E então se virava a banda: entrava o Tata Kimbanda, aquele responsável pela comunicação com o Maioral e com o véu da espiritualidade, e começava a Kimbanda.
O próprio nome do culto nasce desse gesto. Virava-se a banda para o Tata Kimbanda entrar. Virava-se a banda para a Kimbanda acontecer.
A Kimbanda como ressignificação
A Kimbanda como sistema religioso surge nos anos 1940. Não é uma religiosidade que veio da África com esse nome. Não está no Brasil há séculos com essa forma. Ela nasce da Macumba Carioca que precisou se desmembrar para sobreviver: de dia, a macumba aberta; de noite, fechadas as portas, a Kimbanda.
E o nome que os inimigos escolheram para demonizar o culto do Maioral foi ressignificado por aqueles que o praticavam. Kimbanda hoje é exatamente isso: a ressignificação daquela demonização.
Por isso é tão importante estudar história. Não para colecionar datas, mas para entender que se você olha para o Maioral como um demônio, está concordando com as mesmas pessoas que perseguiram, criminalizaram e tentaram destruir essa tradição. São as mesmas pessoas que odiavam o preto, o indígena, o pobre, o muçulmano, o marginalizado que construiu a macumba carioca.
Entender a origem da Kimbanda é recusar essa herança.
O que vem a seguir
Esta é a primeira publicação de uma série que vai aprofundar cada aspecto do culto: a formação histórica da Macumba Carioca, o Calundu, a diferença entre Kimbanda e Umbanda, o fundamento do Maioral, a iniciação, a estrutura da Kimbanda Treme-Terra.
O Tata Mukua já desenvolveu no canal do YouTube uma série completa sobre a Kimbanda, com o mesmo rigor histórico e o mesmo fundamento sacerdotal que você encontra neste blog.
Assistir à série completa no YouTube
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Que N’zambi nos traga bençãos!
Salve Maioral!
Salve a Família Treme-Terra!





[…] não pertenciam ao culto e que o odiavam. Escrevi sobre isso com mais profundidade no texto sobre a origem da Kimbanda, e recomendo a […]