O que muitos conhecem como Umbanda e a Kimbanda é a camada mais recente de algo muito mais antigo. São séculos de encontros, resistências (dores e sangue) e reinvenções. Muito mais do que um 15 de Novembro conveniente.
E essas tradições sobreviveram porque houve pessoas que se expuseram para que elas resistissem. Através da oralidade, do culto, do corpo. Nossos ancestrais foram presos, escravizados, perseguidos e mortos, para manter parte da memória viva. É nosso dever honrar essa memória. Lembrar com orgulho.
Até chegarmos aqui, foram séculos de marcos históricos, com uma organização de cultos muito importantes para a história: Santidade, Calundu, Cabula, Macumba Carioca. E esses nomes não foram dados por quem praticava. Foram dados por quem estava de fora, com medo ou com preconceito. A história que chegou até a gente foi escrita pelo lado que ganhou. Uma visão distorcida do colonizador.
E essas práticas têm algo em comum, que é muito forte: a cura. Cura do corpo e do espírito. Cura para o amor, seja ele próprio ou o que foi traído. Cura para essa gente que sofria. Que tinha saudade da sua terra. Que vivia à margem. Que precisava continuar existindo. Uma cura que chegava também para o homem branco.
A partir de toda essa mistura que aconteceu no Brasil, as práticas afro-brasileiras vão carregar um tripé muito sólido. De forma bastante simplificada, podemos observar três grandes influências: as práticas indígenas – dos povos originários dessa terra; as práticas africanas – com uma forte influência Bantu através dos escravizados trazidos em sua grande maioria dessas regiões; e as práticas católicas – que em grande parte foram impostas à força pela catequização, e que os povos escravizados souberam transformar em resistência.
É desse encontro que tudo nasce.
Mas a cada momento da história, a cada vez que esses cultos ganhavam corpo e potência, o Estado tentava derrubar, diminuir, demonizar. E isso vem acontecendo desde o século XVI.
Quando olhamos para Umbanda e Kimbanda, estamos olhando para o resultado de séculos de resistência.
Esses marcos não formam uma linha reta da história. Muitos coexistiram e se influenciaram mutuamente ao longo dos séculos.
Santidade — século XVI e XVII
Um dos primeiros nomes que carregam toda a potência e resistência dos povos originários aparece nos documentos do Santo Ofício, no período da colonização: a Santidade. Pajés e lideranças indígenas criaram movimentos que misturavam a espiritualidade Tupi com os símbolos católicos que os colonizadores tentaram impor pela catequização forçada. Não foi rendição, foi estratégia. Os povos originários não foram passivos. Absorveram o que chegou e transformaram do jeito deles, mantendo viva a comunicação com os antepassados, o uso do petum (tabaco), das ervas, da fumaça do cachimbo.
Pelos registros, percebemos que o culto não era exclusivo dos indígenas – portugueses, mestiços e negros bantus escravizados também participavam.
A Santidade teve seu culto profundamente enfraquecido com a chegada da peste (varíola). Só nos aldeamentos jesuíticos da Bahia, entre 1562 e 1563, morreram 30 mil indígenas em três meses.
Calundu — séculos XVII e XVIII
Africanos escravizados, grande maioria de origem Bantu, chegam ao Brasil a partir do século XVI e passam a conviver com indígenas e portugueses. É desse encontro, ao longo dos séculos, que surge o primeiro registro do Calundu.
Uma das hipóteses para o nome Calundu vem do significado “cara feia” – fisionomia da pessoa ao incorporar. Mas há quem traga a origem do umbundu “kilundu” – aquele que impõe proibições, espírito ancestral que castiga quem sai da linha.
Os registros descrevem o Calundu como um espaço de consulta espiritual e cura: do corpo, da alma, do amor e das dificuldades materiais. As cerimônias são abertas ao público. Negros, indígenas, portugueses: todos buscavam a cura nos calunduzeiros.
Em muitos registros, encontramos mulheres ocupando o papel de liderança. A sacerdotisa recebia o kilundu, o espírito ancestral, e ia à mata buscar o que fosse necessário para a prática. Instrumentos de percussão, ervas e fumo auxiliavam no transe e nos trabalhos.
Cabula — séculos XVIII e XIX
Os registros da Cabula aparecem em várias partes do Brasil: Salvador, Espírito Santo e Rio de Janeiro. É o culto mais organizado até então: com ritual e hierarquia bem definidos e, pela primeira vez, uma iniciação.
Muito baseada na tradição bantu, a Cabula também recebeu influências de diferentes grupos que chegaram ao Brasil no século XVIII. Alguns autores apontam possíveis influências dos muçulmanos africanos – os Malê – e de elementos associados à cabala. O espiritismo chega ao Brasil na segunda metade do século XIX e deixa também a sua marca. Catolicismo popular, tradição indígena, matriz bantu, islamismo e espiritismo se encontram nesse contexto. Mesmo diante da perseguição e das tentativas de apagamento, os saberes afro-indígenas permaneceram vivos e estruturam o culto.
Uma das hipóteses para a origem do nome Cabula vem da deformação da palavra cabala, que chega aos povos bantus através do contato com os Malê.
Tem o foco de obter a cura de todos os males. O nome do chefe da Cabula é o embanda – plural de kimbanda, que pratica a cura. Quem auxilia é o cambone. A reunião se chama engira, feita na mata, escondida, ao redor de uma árvore sagrada. Cantavam-se os nimbus (cantos), acompanhados por palmas, para induzir ao transe. Ervas, raízes e pemba, usada para proteção e pontos riscados, completam o ritual. Os espíritos que incorporam na cabula eram chamados de “Tata” – pai em kimbundu. Temos registros de nomes como “Tata Caveira”, “Tata Rompe Mato”.
Qualquer semelhança ao que conhecemos hoje não é mera coincidência.
Macumba Carioca — séculos XIX e XX
O nome macumba designa árvore ou instrumento musical. Com o tempo, o nome do instrumento tocado nas giras passou a designar o culto.
As práticas da macumba já existiam no início do século XIX, mas a Macumba Carioca se consolidou como fenômeno urbano na segunda metade do século. Esse processo ganha força após 1850 e se intensifica no pós-abolição, em 1888. Como capital do Império, o Rio de Janeiro atraía pessoas de diferentes origens em busca de trabalho e melhores condições de vida.
A abolição sem política de inclusão jogou os libertos para as periferias. A zona portuária (a Pequena África, entre Gamboa e Santo Cristo) virou ponto de encontro desse povo: mestiços, baianos, indígenas, ciganos, africanos libertos, mulheres e homens marginalizados. E é desse encontro que a Macumba se forma como prática urbana.
Mesmo na cidade, o culto foi alvo de perseguição policial, acusações de curandeirismo e preconceito. A liberdade prometida estava longe de alcançar esse povo.
A Pequena África era abrigo para quem chegava sem nada, cura para quem não tinha pra onde ir e resistência para quem não queria esquecer de onde veio.
A Macumba Carioca, como um culto majoritariamente bantu, absorvia diferentes influências sem abandonar seus fundamentos. Dependendo do segmento seguido pelo sacerdote, bantu, jeje ou yoruba, eram cultuados nkisis, voduns ou orixás. Em uma cidade onde diferentes tradições conviviam, elementos do catolicismo popular e do espiritismo kardecista também passaram a circular entre alguns grupos.
Os adeptos faziam giras de umbanda em busca de cura — física, emocional, financeira, espiritual. Em bantu, umbanda significa exatamente isso: cura. A palavra existia muito antes de virar o nome de uma religião.
O culto aos antepassados, o uso de ervas, fumos e a incorporação seguiam presentes. Já havia a incorporação de entidades com nomes – Pai João, Tata Rompe Mato, mas não havia uma classificação sistematizada em linhas.
Ruptura do século XX
Depois de estudar a Santidade, o Calundu, a Cabula e a Macumba Carioca, percorrendo os séculos de resistência, fica evidente: Umbanda e Kimbanda surgem de uma mesma tradição. Mas compreender como elas passaram a ser tratadas como coisas separadas exige olhar para o Brasil do início do século XX.
O Brasil vivia um projeto de modernização. A República era jovem. As elites buscavam construir uma imagem de país civilizado, europeu e branco.
E é nesse contexto que a Macumba Carioca passa por uma releitura. E essa releitura não é inocente.
Em 1908, a manifestação do Caboclo das Sete Encruzilhadas marca, para muitos, o nascimento da Umbanda.
Décadas depois, no I Congresso do Espiritismo de Umbanda, em 1941, um grupo de homens da elite se reúne para definir o rumo da religião. Num projeto claro de embranquecimento do povo e da cultura brasileira, tudo que remetia diretamente ao negro é varrido pra fora.
O que sobra ganha um nome novo: Umbanda. Batizada de branca. Com ênfase nas práticas cristãs e espíritas, mais palatáveis para quem queria uma religião “civilizada”.
O que foi expulso – os elementos africanos, os rituais considerados pesados, tudo que não cabia nesse projeto – passa a ser chamado de Kimbanda. Magia negra. Como se fosse algo menor, perigoso, a ser evitado.
É uma separação construída em cima de preconceito. E é artificial.
Nas tradições africanas esse antagonismo entre bem e mal nunca existiu. Ele foi imposto de fora.
E a história não termina em 1941. Em 1946, a liberdade de culto passa a ser garantida pela nova Constituição. Mas a lei não foi suficiente para apagar os séculos de preconceito, que volta a ganhar força na ditadura militar de 1964. E que, de alguma forma, ainda vemos hoje.
Houve quem aderisse ao projeto de embranquecimento. Mas houve também quem usasse essa mesma roupagem como escudo, adotando a Umbanda branca como forma de proteção e sobrevivência, em meio à perseguição e à criminalização da época.
Umbanda e Kimbanda têm as mesmas raízes. A Santidade, o Calundu, a Cabula, a Macumba, tudo isso pertence às duas.
O que as separa não é a origem. É o olhar de quem quis dividir para diminuir.
Saio dessa jornada com uma certeza: precisamos estudar nossa história para entender como chegamos até aqui.
Conhecer essa história não é exercício intelectual. É respeito. É o mínimo que a gente deve aos mais velhos que resistiram, com o corpo e com a fé, a tudo que tentou apagar o que eles carregavam.
Hoje vivemos a história que será contada amanhã. É nosso dever compreender o que recebemos e decidir o que deixaremos para quem vier depois.
O fio que conecta tudo nunca se rompeu. Só tentaram fazer a gente esquecer que ele existia.
Axé!
N’gunzo!
Salve Família Treme-Terra!
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Referências e leituras:
A Heresia dos Índios – Ronaldo Vainfas
A Morte Branca do Feiticeiro Negro – Renato Ortiz
Bantos, MaLês e Identidade Negra – Nei Lopes
Umbandas: Uma História do Brasil – Luiz Antônio Simas
O Que É Religião Afro-Brasileira – Babá Mario Filho
Umbanda Histórica – Gabriel Dacc
Curso: As Bandas antes da Umbanda – Babá Mario Filho (disponível na Hotmart)




